Ex-aluna da EFG Basileu França é selecionada para o Salão Nacional de Arte de JataíPublicado em: 27 de October de 2026
Artista visual Anuã Aucê apresenta a obra Ninho Dois, que explora ancestralidade, identidade indígena e os vínculos entre cerâmica, território e pertencimento
A artista visual Anuã Aucê, formada no curso de Qualificação de Artes Visuais da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França, foi selecionada para o 22º Salão Nacional de Arte de Jataí. A cerimônia de abertura e premiação será realizada em 3 de dezembro de 2026, no Museu de Arte Contemporânea de Jataí, no centro da cidade. A exposição permanecerá aberta ao público até 6 de fevereiro de 2027.
A obra selecionada, intitulada Ninho Dois, reúne elementos da pesquisa artística desenvolvida por Anuã em torno da ancestralidade, da identidade e da construção de pertencimento. Por meio da cerâmica e de sua combinação com o vidro, a artista investiga as relações entre memória familiar, herança cultural e território, em um percurso que articula experiências pessoais e referências coletivas.
Nascida e criada em Goiânia, Anuã vem de uma família de artistas e ceramistas. É filha da artista visual e professora Anahy Jorge, neta do escultor Divino Jorge e sobrinha do também escultor Sérgio Jorge. O contato com o barro começou ainda na infância, durante a convivência nos ateliês familiares, onde aprendeu técnicas e acompanhou o processo de criação de diferentes gerações de artistas. “Eu sempre aprendi vendo a família trabalhar com a cerâmica, trabalhar com o barro”, conta.
Embora tenha se formado em Design de Moda pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Anuã retomou o trabalho com a cerâmica em 2017, quando sua mãe voltou a produzir biojoias. O interesse inicial pelas peças utilitárias e decorativas evoluiu, posteriormente, para a investigação da figura humana e para uma pesquisa autoral sobre suas origens.
Em 2023, ingressou no curso de Artes Visuais do Basileu França, onde fez os cursos de Escultura em Cerâmica, de Vidro Fusão e de Mesa posta, buscando aprofundar os conhecimentos em escultura e figuração. No mesmo período, passou a frequentar o Sertão Negro, espaço de criação e formação artística em Goiânia, onde ampliou suas experiências, participou de atividades formativas e aprimorou técnicas e procedimentos de trabalho.
A convivência nesses ambientes contribuiu para que a artista encontrasse caminhos próprios de expressão. Sua produção passou a estabelecer um diálogo entre a tradição ceramista de sua família e a ascendência indígena paterna.
Ancestralidade como matéria de criação
A identidade ocupa lugar central na pesquisa de Anuã Aucê. De um lado, está a herança artística familiar, construída por meio da convivência com a cerâmica, as esculturas e os ateliês. De outro, está a ascendência indígena, que a artista procura compreender e expressar a partir de sua própria experiência, reconhecendo os limites de sua vivência como descendente não aldeada.
O contato com estudantes, artistas e visitantes indígenas no Sertão Negro ampliou suas possibilidades de diálogo com esse universo cultural. Nesse processo, Anuã passou a investigar o próprio nome como ponto de partida para a construção de uma linguagem visual autoral.
Em vez de reproduzir grafismos indígenas vinculados a tradições e significados culturais específicos, a artista desenvolve grafismos próprios, inspirados em seu nome e em sua trajetória. A pesquisa se desdobra em trabalhos que abordam identidade, retomada, memória e território. “Por meio do meu nome, desenvolvi os meus próprios grafismos. Com eles, venho buscando essa identidade, discutindo essa retomada, esse lugar, essa procura e esse território que habita em mim”, explica.
Entre os trabalhos resultantes dessa investigação estão os chamados Vasos Coroados, pequenas peças de cerâmica que incorporam os grafismos criados pela artista. A pesquisa inclui experimentações com argilas naturais, engobes — revestimentos líquidos de argila utilizados na cerâmica — e diferentes massas cerâmicas, explorando variações de cores e texturas.

Foto: Anuã Aucê
Cerâmica e vidro na construção de sentidos
O encontro com a técnica de fusão de vidro, durante sua passagem pelo Basileu França, acrescentou uma nova dimensão à produção da artista. A partir daí, Anuã começou a combinar os dois materiais, explorando suas características físicas e suas possibilidades simbólicas.
Em seus trabalhos, o vidro é fundido parcialmente, preservando a forma dos cacos. A escolha não é apenas estética: o material também assume um sentido de proteção, associado à preservação da identidade, da ancestralidade e das histórias que antecedem a artista.
A combinação entre cerâmica e vidro amplia, assim, o vocabulário visual de Anuã e reforça a relação entre matéria e conceito. O barro remete à tradição, à origem e à construção de formas; o vidro, com suas bordas cortantes e sua resistência, acrescenta à obra uma camada de proteção e cuidado.
Foto: Paulo Rezende
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